A instituição "escola" é criação nova na história[1]. Há grupos sociais que não vivem sob o império da escrita, não atribuindo à escola importância maior que a lida pela subsistência. Não estou falando de sociedades sociais pré-colombianas. Refiro-me a grupos sociais da sociedade brasileira do século XXI. Nesses grupos, trabalhadores rurais e urbanos do nosso Brasil não regem suas condutas por contratos escritos. O que vale são contratos baseados na palavra empenhada, "no fio de cabelo do bigode" como dizia meu avô que era analfabeto funcional e trabalhava na lavoura, ou no “toma lá dá cá” das práticas de algumas feiras do nordeste brasileiro onde o escambo é a base de seus negócios. Para esses grupos, a escola é tão importante em seus cotidianos quanto as fases da lua o são para o cidadão pós-moderno.
A escola é produto da nossa carência do conhecimento sobre a vida, ou de nosso inacabamento como seres humanos, como disse Paulo Freire. Esta consciência fez com que criássemos a instituição “escola”, dentre outros elementos culturais, para melhor compreendermos a realidade. A escola como constructo social tem como fim explicar e questionar a realidade às novas gerações a fim de que não sofram as mesmas dores do partejamento das construções conceituais pelas quais passaram gerações passadas ao mesmo tempo se propõe a apresentar novas soluções para antigos problemas.
Contudo, ao longo do tempo, esta função social da escola vem sendo anuviada. Os mecanismos metodológicos criados com intenção de facilitar a aprendizagem das crianças, dos jovens e dos adultos foram se tornando tão importantes nas escolas e nas práticas dos professores que uma perigosa inversão começou a se operar: o método tomou lugar do objetivo, o particular substituiu o geral, o ensino passou a ser o principal em detrimento da aprendizagem e o ensino de conteúdos substituiu o ensino do como pensar.
Assim, nós pedagogos atuamos diariamnete preocupados em cumprir um “programa” onde uma série de “conteúdos” tem que ser ensinados, valorizando, sem muitas vezes percebermos, a memorização e a cópia, deixando de lado alguns conteúdos que considero essenciais para que a escola cumpra seu papel social: a alfabetização emocional que possibilita aliança equilibrada entre a emoção e a razão; o ensino de conteúdos atitudinais que valorizam a diversidade; a aprendizagem de conteúdos estéticos que valorizam a criatividade; e a aprendizagem da diferença entre o mundo natural e o mundo social para que suas ações promovam crescimento com respeito à natureza e à dignidade do ser humano.
Ao ensinar ortografia, por exemplo, nos esquecemos que o objetivo desse ensino é proporcionar uma aprendizagem através de procedimentos metodológicos que só se justificam por facilitarem a leitura e a produção textual. Se o ensino de ortografia se justifica por preparar o estudante para ler bem e escrever bem, minha opinião é que a aprendizagem dos conteúdos ortográficos ocorra concomitantemente com leituras e produções textuais constantes, afinal não é caminhando que se aprende a andar? não é falando que se aprende a falar? então é lendo e escrevendo que se apende a ler e a escrever.
Penso que nós pedagogos poderíamos selecionar e apresentar, considerando a realidade de nossos alunos, textos apropriados que despertem o prazer, a curiosidade e a utilidade da leitura. Assim, a aprendizagem do uso do "J" e do "G", por exemplo, aconteceria no exercício da leitura e da produção textual. Aprendemos ortografia não porque nos fizeram decorar regras, mas porque lemos a grafia correta e porque buscamos escrever corretamente, fazendo uso de várias ferramentas que a escola põe a nossa disposição como dicionários, gramáticas, livros didáticos e, é claro, bons professores.
Considero que o ensino de ortografia não deve descartar a informática nas leituras e nas produções textuais, pois esta ação é tipicamente interdisciplinar e possibilita a realização de uma das funções da escola que é possibilitar, especialmente aos alunos pobres, o acesso à produtos tecnológicos e culturais não acessíveis no cotidiano desses alunos. Como exemplo do que digo convido à (auto)reflexão do quanto nós, oriundos de classes sociais baixas, aprendemos na escola e no trabalho fazendo uso de instrumentos que não dispomos em casa e o fazemos não de forma paralela ao trabalho e aos estudos, mas de forma integrada, contextualizada com as demandas diárias.
Finalizando, não podemos perder de vista a idéia de que ao criar métods a escola , fazendo uso da razão, busca facilitar a aprendizagem, não se justificando de forma alguma o desfoque do objetivo principal que é promover aprendizagem buscando viver, vivendo bem; buscando construir caminhos, caminhando; enfim, não preparando para a vida, mas vivendo a própria vida que acontece em todos lugares, inclusive na escola.
Boa Vista-RR, 5/12/2010
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