17 de set. de 2010

PROJETO ACELERAÇÃO DA APRENDIZAGEM EM BARCARENA-PA

Resumo expandido apresentado no II Seminário de Educação Inclusiva na UFRR

1. Introdução
Este trabalho tem como base o relatório de pesquisa, pré-requisito para obtenção do título de Especialista em Psicopedagogia Institucional pelos seus autores. A pesquisa “Olhar Psicopedagógico ao Projeto Aceleração da Aprendizagem em Barcarena-PA” tomou como situação problema o fato de muitos alunos de ensino fundamental da Secretaria Municipal de Educação de Barcarena (SEMED) serem reprovados anos seguidos, sob a justificativa de serem “alunos com problemas de aprendizagem”. Ao participarem do Projeto Aceleração da Aprendizagem (PAA), a maioria desses alunos obteve elevado aproveitamento.
A pesquisa inclui-se no eixo temático “Inclusão e escola tendo atuado como ação inclusiva, já que foi pensado, segundo OLIVEIRA (1998), para alunos com “baixo nível de auto-estima” e alta “resiliência”, isto é, capacidade de pessoas que foram “submetidas a elevadas doses de privações, frustrações e dificuldades, mas continuam a tentar”. (p.70)
A pesquisa partiu das seguintes questões norteadoras: 1) porque as avaliações de muitos alunos foram satisfatórias no PAA e insatisfatórias nas turmas convencionais?; 2) qual a concepção de aprendizagem nas práticas docentes do PAA?; 3) que relações estabeleceram professores e alunos nas turmas do PAA?; 4) quais saberes foram construídos pelos alunos no PAA?
Assim estabelecemos os objetivos da pesquisa: 1) identificar a concepção de aprendizagem dos docentes do PAA; 2) relacionar afetividade com os saberes construídos pelos discentes.

2. Referencial teórico
Adotamos como referencial teórico concepções de do educador Paulo Freire (1), de psicólogo Lev Vygotsky (2), do psicólogo Henri Wallon (3) e do epistemólogo Jean Piaget (4).
3 Metodologia
Optamos por realizar um estudo de caso, numa abordagem qualitativa, com os seguintes instrumentos de coleta de dados: 1) entrevistas semi-estruturadas aplicadas a professoras, alunos e pais/responsáveis envolvidos no PAA; 2) análise documental dos relatórios anuais da coordenação do PAA, dos livros “do estudante” produzidos pelo PAA e do livro “Pedagogia do Sucesso” com a proposta de ação do PAA.

4 Resultados
À pesquisa identificou a concepção de aprendizagem dos docentes do PAA como “eclética e pragmática”, não se atendo a delimitações conceituais específicas. A metodologia no PAA buscava resultados práticos visando alcançar objetivos estabelecidos nas unidades de ensino do PAA.
Percebemos que as professoras valorizaram conhecimentos prévios dos aprendentes, buscando aprendizagem significativa, isto é, vinculadas às prática cotidianas, especialmente aos aspectos atitudinais, como o respeito ao outro, e às histórias de vida de cada um e à crença na possibilidade da mudança.
A valorização da afetividade foi um elemento diferenciador entre as turmas do PAA e as turmas convencionais. Tal fator mostrou-se altamente relevante para que os alunos passassem a obter sucesso na aprendizagem dos conteúdos propostos pelo PAA. Os principais saberes construídos pelos discentes foram a elevação do nível de letramento (5) e mudanças atitudinais na escola e na família.
A pesquisa mostrou também que o PAA possibilitou a construção de novos saberes pelos pais e professores. Atribuímos tal resultado a influência da afetividade (6) e ao envolvimento da família com o PAA.
Os relatórios do PAA e as entrevistas indicaram terem sido alcançados resultados positivos na promoção de aprendizagem e na formação ética (7).
Aprenderam discente, (8) que passaram a ter avaliação satisfatória ao longo das aulas, e aprenderam ensinantes (9), que passaram a acreditar na “pedagogia do sucesso” em substituição à “cultura da repetência”. Também aprenderam pais (10), que descobriram os benefícios do envolvimento da família com o processo educativo promovido pela escola.

5. Conclusão
Concluímos que o PAA na SEMED de Barcarena deixou de ter o objetivo de “acelerar a aprendizagem” de alunos multi-repetentes. Nos últimos anos de sua atuação o PAA passou a apenas alfabetizar discentes procedentes de turmas convencionais que não conseguiam atingir nível satisfatório de alfabetização passando a apenas realizar “promoção”, isto é a passagem para a série posterior.
A pesquisa indicou que o estabelecimento de relação afetiva entre os sujeitos da aprendizagem e a busca de construção de saberes significativos para a vida por parte dos aprendentes são elementos fundamentais no processo ensino-aprendizagem.
Notas:

  1. É preciso que o(a) educador(a) saiba que o seu ‘aqui’ e o seu ‘agora’ são quase sempre o ‘lá’ do educando. (...) ninguém chega lá, partindo de lá, mas de um certo aqui. (...) não é possível ao(a) educador(a) desconhecer, subestimar ou negar os ‘saberes de experiência feitos’ com que os educandos chegam à escola (FREIRE, 1992. p. 59).

  2. A construção do pensamento e da subjetividade é um processo cultural e não uma formação natural e universal da espécie humana. Ela se dá graças ao uso de signos e ao emprego de instrumentos elaborados através da história humana em um contexto social determinado. (VYGOTSKY apud OLIVEIRA, 1997, p.127).

  3. A aprendizagem é um processo essencialmente pautado na afetividade. (FERREIRA, GÓES, & SILVA, 2007, p. 10)

  4. Através dos conceitos de “esquema”, “assimilação”, “acomodação” e “equilibração” Piaget explica a interação que o se humano estabelece com o meio ao longo da vida. De acordo com esta concepção, entende-se que aprender é apresentar soluções a antigos ou novos problemas. (FERREIRA, GÓES, & SILVA, 2007, p. 18)

  5. No conceito de letramento está a idéia de que a aquisição e o uso social da escrita produz no indivíduo uma mudança no modo de viver resultante de uma nova aquisição cultual (a técnica de ler escrever textos) com a qual passa se relacionar diferente com o mundo (GÓES, 2006, p. 40)

  6. Henri Paul Hyacinthe Wallon, foi um dos precursores da valorização da emoção das crianças no processo de ensino aprendizagem nas salas de aula. A afetividade tem se mostrado de alta relevância no processo de aprendizagem não só das crianças, mas também dos jovens e adultos. (FERREIRA, 2006, p. 13)

  7. Em relação a função social da escola, podemos dizer que a ela cabe, ao lado da formação técnica, a formação de homens e mulheres conscientes de sua participação, nos grupos sociais em que estiverem inseridos, de forma política ética e ecológica baseada em valores que preservem a vida com qualidade e dignidade. (SILVA, 2005, p. 14)

  8. Eu não sabia nem ler, nem escrever. Quando eu entrei, eu respondia muito pra mamãe. No Projeto eu aprendi a ler, a escrever, a desenhar... o Projeto pra mim, foi muito legal porque eu aprendi muitas coisas lá. Eu aprendi outras coisas com a professora e hoje eu mudei meu comportamento. (Aluno 8)

  9. Antes eu pensava que tinha que terminar todos os conteúdos. Hoje não... se chegar o final e faltar concluir conteúdos eu tenho consciência que o ensinado foi aprendido. Não adianta encher a cabeça do aluno de coisas se ele não vai aprender nem a metade (Professora 7)

  10. Eu, mãe, aprendi muita coisa... eu não sabia nem como falar com meu filho, o Projeto envolvia a família. Eles ensinavam e educavam. (Mãe 4)

6. Referências Bibliográficas

FERREIRA, Góes & Silva. Olhar Psicopedagógico ao Projeto Aceleração da Aprendizagem em Barcarena-PA. Belém, 2007. Monografia (Especialização em Psicopedagogia Institucional) – Centro Universitário do Pará - CESUPA.
FERREIRA, Odineth Poça. Educação Emocional: uma vivência no Projeto AJA – Alfabetização de Jovens Adultos. Abaetetuba-Pa, 2006. Trabalho de Conclusão de Curso (Grau em Pedagogia) – Campus Universitário do Baixo Tocantins, UFPA.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 10 edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992.
GÓES, Deuzivaldo José de Barros. Teoria e Prática: análise das práticas pedagógicas dos professores de EJA na Escola Checralla Khayat em Barcarena - PA. Abaetetuba, 2006. Trabalho de Conclusão de Curso (Grau em Pedagogia) – Campus Universitário do Baixo Tocantins, UFPA.
OLIVEIRA, João Batista Araújo. A Pedagogia do Sucesso: uma estratégia política para corrigir o fluxo escolar e vencer a cultura da repetência. Brasília:Instituto Airton Sena,1998.
OLIVEIRA, Martha Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997.
SILVA, Lidiany Santos da. Função social da escola: o papel social da escola na visão dos alunos. Belém, 2005. Monografia (Especialização em Administração Escolar) – Universidade Estadual do Pará - UEPA.